Ria!
“Oh, céus! Oh, vida! Oh, azar! Isso
não vai dar certo!” Esse era o bordão
da hiena Hardy, do desenho Lippy e Hardy, que fez sucesso nos anos
1970 e 80. Lippy era um leão e tentava reduzir o mau humor
do amigo Hardy. Na contramão, há o protótipo
da felicidade exacerbada. Recentemente, uma marca de carros
lançou a campanha com o mote “tudo bem”: uma das
personagens, Rosa, passa por situações de acabar com
a paciência, mas ela se conforma e diz “tudo
bem”.
Andar sob uma
nuvem negra não é exclusividade da
ficção. Todos os dias, cruzamos com hienas desse tipo
e, algumas vezes, nós mesmos estamos com o estado de
ânimo alterado ou explodindo de tanta animação.
A ciência já sabe que isso tem a ver com
alterações hormonais e com a química do
cérebro, mas uma parcela bem grande dessa
reação também se relaciona com nosso olhar
perante a vida: como você reage diante das nuvens negras?
Como você recebe as boas coisas? Enfim, é a velha
história do copo com água até a metade. Alguns
podem achar que o copo está meio vazio, e outros, meio
cheio. Dá para encontrar o equilíbrio desses dois
pesos ou duas medidas? Sim. E é isso que tentamos descobrir.
Tudo, claro, com uma boa pincelada de humor.
O resultado desse desgaste, que sabota o dia-a-dia, é o distanciamento de sentimentos leves, alegres e relaxantes. “Nossa cultura é cada vez mais estimulada a não sentir, a produzir sem envolvimento emocional”, afirma a psicóloga especialista em análise bioenergética Solange Bertão. Dessa forma, instala-se uma frustração silenciosa e por vezes permanente, que altera o humor.
Uma solução para não se transformar em um personagem mal-humorado é tentar ficar atento ao que leva à irritação. E assim não deixar que isso se transforme em regra. “A pessoa precisa se esforçar para se ver de verdade e reconhecer o que não vai bem”, diz Vera Couto, psicoterapeuta e especialista em mitologia. Uma maneira de entender os porquês que incomodam é buscar a leveza do humor verdadeiro. Para a psicoterapeuta, o resgate da criança interior que todos têm coloca as pessoas em contato com o riso genuíno, com a gargalhada espontânea guardada dentro delas, tirando o peso do mau humor e ganhando desprendimento para a auto-observação. “Os adultos perdem o costume de deixar as coisas ruins para trás, diferentemente das crianças, que fazem isso tão bem”, afirma o escritor e palestrante norte-americano Hale Dowskin, que trabalha com o desenvolvimento emocional e participou da produção para a TV do filme O Segredo . Na prática, funciona da seguinte maneira: tente rir mais das pequenas coisas, mesmo que pareça bobo aos olhos dos outros. Isso ajuda a diluir os nós da irritação. Quem sabe fazer muito bem isso é o ator e clown Wellington Nogueira, que criou a organização não-governamental Doutores da Alegria, os palhaços doutores que reduzem a dor e a angústia de crianças nos hospitais. “Precisamos ter consciência de que podemos fazer escolhas para tudo. Temos o poder de decidir pela alegria, pela serenidade e pela capacidade de rir”, afirma ele.
Tá bom, não precisa se vestir de palhaço. A questão é começar, a sua maneira, a perceber o que gera os sentimentos negativos. “Ao lado do mau humor, há o potencial positivo da capacidade de enxergar e mudar o problema”, diz a psicoterapeuta Paula Rozin.
Em boa parte das situações, ficar ou não de mau humor é uma opção que está relacionada à intensidade e à qualidade dos pensamentos. “Em geral, superdimensionamos o que deu errado porque nos baseamos no que aconteceu e não nos dissociamos do fato de que isso é passado. Quando se aprende a deixar as coisas para trás, conquistase a habilidade de relevar acidentes que estragam o dia, como perder a paciência por causa da caneca que quebrou no café-da-manhã”, afirma Hale Dwoskin. O escritor se refere à Lei da Atração: se eu penso positivo, atraio o positivo, e se penso negativo, atraio o negativo.
Essa capacidade, afinal, está em suas mãos: cabe a cada um decidir por quanto tempo o céu vai estar carregado de nuvens e quando elas começam a dissipar.



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